quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Contra os empurradores de chopp!

É relativamente recente em Porto Alegre essa moda dos bares que tentam exalar a atmosfera do tradicional botequim carioca: chopp na mesa, samba ao fundo, garçom de aventalzinho, decoração pretensamente simples. A idéia é bacana, sem dúvidas. E tem dado certo - já há algum tempo lugares assim vêm se espalhando pela Cidade Baixa.

Eu aprovo! Sim, dou meu aval - na posição de frequentador contumaz de barzinhos, botecos e similares. Faço, porém, uma ressalva. Só umazinha, deixando mesmo de lado qualquer crítica já obsoleta ao preço do álcool na Capital:

Parem, queridos donos desses estabelecimentos, com a irritante mania de empurrar chopp para os clientes!

Lá estou eu tomando meu chopp, no sossego, conversando com os amigos, quando um garçom passa correndo e cata meu copo, que está perto do final (porém AINDA CONTENDO O PRECIOSO LÍQUIDO), deixando um novo no lugar, sem perguntar se quero, muito menos se pode levar o copo anterior embora. A tática é simples: empurrar chopp sem parar no cliente.

Claro que pode surgir a desculpa singela de que esse método serve para facilitar o atendimento, em benefício do cliente. Porém o benefício maior é do estabelecimento, que lucra mais "se fazendo de lôco".

EU decido quando quero beber mais. E não quero ter que interromper minhas conversas a todo instante para impedir o garçom de impôr sua vontade sobre mim, seja no Boteco do Joaquim, no Natalício ou onde for.

Que essa mensagem se espalhe pelo noite portoalegrense! ABAIXO os empurradores de chopp!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Racismo: teoria e pratica


Em Londres, cidade cosmopolita, multi-cultural, cabem todas as racas, credos e preconceitos. O negro aqui, porem, nao sofre pior tratamento do que o recebido no Brasil; alias, as maiores demonstracoes de racismo que presenciei ou das quais tomei conhecimento nos ultimos meses vieram justamente de brasileiros.

Miguel Schertel, atendente numa das inumeras filiais da Pizza Express espalhadas pela cidade, narrou recentemente as palavras amargas de uma garconete brasileira com quem trabalha, reclamando da "sacanagem" a que vinha sendo submetida pela recepcionista do estabelecimento nos ultimos dias. O problema, segunda ela, era a mania da menina de levar familias de negros para sua area na pizzaria:

- Olha, nao tenho nada contra essa gente, mas tambem nao quero depender da gorjeta deles...

Poucos dias antes eu havia visitado um flat - onde moram apenas brasileiros - em busca de novo quarto para alugar. Apos a tour rotineira pelo imovel, ouvi do camarada que me atendeu as "vantagens" que ele via em morar naquele apartamento. Entre elas, uma peculiar:

- Aqui tu nao vai ter que morar com qualquer um, morar com preto. O que as vezes acaba acontecendo por ai...

Eu descobriria pouco tempo depois que essa preocupacao nao era exclusividade dele. Um pernambucano, negro, dormiu no meu flat - num quarto triplo ja habitado por dois gauchos - por dois dias. Nao foi necessario mais do que esse curto espaco de tempo para que eu ouvisse dezenas de piadinhas sobre ele e para que uma reclamacao informal chegasse ao nosso landlord, feita por um dos colegas de quarto do rapaz, sobre o "tipo de gente" que ele estava colocando no flat.

Os ingleses nao sao santos, claro. Mais de uma vez, em frente a pubs, escutei vindo de carros rapidos - e medrosos - ofensas racistas dirigidas a negros que estavam parados perto de mim. Sao genuinamente inglesas, tambem, as gangues juvenis que - com acao similar a dos "bondes" que proliferam nas grandes areas urbanas do Brasil - fazem pequenos furtos, cometem vandalismos e, principalmente, espancam pessoas por motivos banais - ou por motivo nenhum. A diferenca da versao britanica 'e a forte motivacao racista na hora de escolher suas vitimas. Que o diga o seguranca negro de um shopping center londrino que, tentando impor respeito sobre quatro pirralhos que faziam baderna num Subway, foi brindado com uma imitacao de macaco e muitas risadas.

No entanto, o garoto responsavel por essa cena vergonhosa deixou o shopping chorando dentro de uma viatura de policia.

A diferenca principal? Os negros que vivem na Inglaterra tem menos barreiras sociais e economicas do que as enfrentadas pelos negros brasileiros. Assim, se da com rapidez a efetiva inclusao deles na sociedade, o que colabora em muito para que sentimentos de odio racial arrefecam. O racismo no Brasil sobrevive alem do preconceito velado. Ele sustenta a desigualdade social atraves de um sistema judiciario e de uma economia elitistas, alem de encontrar o descaso de politicos que enxerga os negros apenas como massa de manobra, com apelo francamente populista. O brasileiro 'e racista na teoria e na pratica, em grau que ainda nao encontrei parecido em qualquer outra nacionalidade.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Desabafo

Nao sei ate que idade acreditei nessa farsa - ate certo ponto engracada - que nos fazem crer desde novos, de que o bom vence, a meritocracia existe, as formigas levam a melhor no final de toda historia. Com certeza nao foi algo recente, mas tampouco foi algo instantaneo - e sei que volta e meia, com mais frequencia do que gostaria, tento me convencer, me fazer acreditar nessa ideia estupida.

Provavelmente a nocao de vitoria final do "bem" contra o "mal" comecou com o advento da Religiao e disseminou-se rapidamente com os anos nas Trevas da Igreja Catolica e suas historinhas da carochinha mais do que eficientes. Desde muito novos crescemos envoltos por esse pensamento ridiculo - e, por muitas vezes, apenas confortador - de que nossos atos bons nos trarao a Redencao. Nos tempos em que a Igreja Catolica dominava todo o Ocidente com mao de ferro - e outros instrumentos de ferro tambem - nem ao menos existia a ideia de recompensa em vida, apenas a promessa do ceu para os bons e as chamas do inferno para os pecadores. Claro que essa nocao foi se subvertendo com o tempo, e aos poucos comecamos a instituir uma nova versao da palavra do Senhor: "Das que Receberas Tambem", "Deus Ajuda Quem Cedo Madruga", ou a melhor de todas "Aqui Se Faz, Aqui Se Paga".

Claro que todos acreditam nessa baboseira buscando apenas amenizar a verdade que, do fundo de nossa percepcao, poderia infernizar nossas vidas: fazer o que se acredita certo, e o que os outros acreditam certo, nao garante porcaria nenhuma, e aquele puxa-saco incompetente do seu trabalho tem grandes chances de se dar muito bem na vida sem qualquer merecimento, enquanto a honrosa integridade que voce acredita ter - entre outras qualidades admiraveis - pode vir a te levar para o olho da rua ou, pior, de encontro ao para-choque de um caminhoneiro bebado.

Muitas pessoas tem o sonho de morar na Europa, conhecer outras culturas, pessoas, trabalhar, estudar nesse continente onde vivo agora. Ja foi um grande desejo meu tambem. Hoje vivo em Londres e posso confirmar algo que ja imaginava e sobre o que ja tinham me falado: a cidade esta cheia de brasileiros que nao aproveitam 99% da oportunidade que tem morando aqui. O museu escolhido por eles chama-se Madame Tussauds, as festas a que vao chamam-se Walk About e Heaven que, talvez por estarem infestadas por eles, sao mais bagaceiras e deprimentes que qualquer Festa do Pinhao - com a diferenca que aqui Ecstasy e LSD custam 10 vezes menos que no Brasil. Eles vivem e sobrevivem entre brasileiros, pois nao conseguem se relacionar com pessoas que estejam fora de sua (pouca) cultura. Viajam pelo continente com o intuito de incrementar seus albuns no Orkut e ganhar algum status. Muito ficam na Europa como imigrantes ilegais.

Eles nao merecem estar aqui. Na verdade, deveriam redimir-se ao velho plano de tentar "passar num concursinho" e ter uma casa em Cidreira para os finais de semana. Mas estao aqui aos montes, e nao consigo evita-los por mais que tente. Nao sao as imagens de violencia na televisao, ou do carnaval, ou as historias de corrupcao e pobreza de nosso pais que estragam a imagem do brasileiro no exterior: sao esses imigrantes descerebrados, ignorantes, que mal sabem escrever/falar na sua lingua materna mas querem "pegar um ingles".

Essas pessoas podem acabar muito melhor do que voce e eu, por alguma razao que nem o tal de Deus saberia explicar. Entao, meu caro, a palavra de ordem 'e PRESSA.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Entre Bukowski e Gutiérrez

Entre Charles Bukowski e Pedro Juan Gutiérrez se dá um paradoxo interessante, inicialmente, com o arrastado cenário político entre os países de origem dos escritores. Os Estados Unidos de Bukowski e a Cuba de Gutiérrez não teriam criado literaturas tão parecidas e tão propensas a uma análise comparatista otimista se levássemos em conta o pensamento generalizador de contexto político e econômico. Isso se mostrará, adiante, equivocado por diversas maneiras.

O universo em que transita a personagem auto-caricatural Henry Chinaski, em livros do “velho safado” como Mulheres e Hollywood, é o de pessoas à margem da estrutura política, econômica e cultural norte-americana dos anos 40 aos 80. Catalogado freqüentemente entre os autores da geração beat, Bukowski se notabilizará pelo contraponto ideológico frente a essa safra de escritores. Ao contrário do desassossego viajante de Jack Kerouac e William Burroughs, não existe em Bukowski a esperança de redenção por sobre a monotonia da vida ordenada e do comodismo americano pós segunda guerra. O exemplo maior de sua filosofia pessoal vai se dar com sua morte e a inscrição feita na lápide: “Don’t Try” – Nem tente. É a impossibilidade de fugir das amarras da sociedade capitalista que dita a lógica escapista do autor. Se não há o caminho para a mudança, o preferível é aproveitar os prazeres levianos do sexo, da bebida, das drogas, da irresponsabilidade, sem comprometimento algum.

Em Trilogia Suja de Havana, Gutiérrez irá dialogar com Bukowski, a princípio, quanto à temática “suja” e desesperançada. Na Cuba de Fidel castro, logo após uma das piores crises econômicas do país – o que não é pouco para um país que passa por uma crise perpétua dentro de seu regime fechado – o cenário não poderia ser mais desolador: pobreza generalizada, tentativas de fuga constantes dos cubanos em busca de oportunidades nos EUA, incomunicabilidade com o exterior. A ausência da esperança é uma constante entre as inúmeras personagens retratadas por Gutiérrez. Similaridades entre o capitalismo estadunidense e o socialismo cubano? Em partes. A opressão sobre as personagens de Bukowski faz parte mais de um sistema cultural – apesar de ligado intimamente ao contexto político e econômico americano – próprio dos EUA do que unicamente do sistema capitalista. Por outro lado, a opressão sobre Pedro Juan e seus amigos segue uma lógica quase naturalista: o Estado está tão presente no dia-a-dia da população cubana que sua presença já quase não é sentida fisicamente, ficando seus resquícios – a miséria, a opressão do individual e a busca incessante da sobrevivência – como fatores ligados à natureza cubana, e transformando o cubano pobre em um ser quase animal. A partir desse momento se pode entender um pouco a proposta de Gutiérrez em outro livro, Animal Tropical: o latino, o caribenho, sua sexualidade e existência em partes escatológica, colocado à distância da civilidade norte-americana e européia.

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A partir desse ponto podemos supor uma independência de motivações entre o cenário de Bukowski e o de Gutiérrez. Na Los Angeles de Bukowski existe a oportunidade, basta entrar no jogo. Na Havana de Gutiérrez a oportunidade não existe, ficando o homem à espera da sorte, e pouco além disso. Para esmiuçar ambas as realidades, os autores se colocaram como seus protagonistas. No caso, personagens parecidas, já que ambas com uma noção primordial da realidade em que vivem e certo conhecimento intelectual que lhes permite analisar o que se passa com sobriedade, apesar da recorrência e, mesmo, preferência por soluções e conclusões fáceis, afeitas à “filosofia de boteco”. Na verdade, as personagens em nenhum momento parecem buscar um caminho diferente, perecendo uma ideologia comum de ausência da ganância, tanto intelectual quanto social. Por outro lado, as personagens secundárias de ambas as obras se mostram menos resolvidas, transparecendo uma inconstância ideológica comum sobre a adequação social. As amantes de Chinaski em Mulheres têm todas um desejo tácito de ascensão, mesmo que transpareçam a mais absoluta ausência de solução para esse problema. Também as amantes de Pedro em Trilogia Suja de Havana são sempre as personagens menos conformadas com a realidade miserável de Havana e com o comodismo que toma conta da população, mesmo que isso signifique apenas, também nesse caso, uma tendência individualista.

Descontando a similaridade temática dos autores, encontramos na estrutura textual e no estilo de prosa de ambos outros pontos de convergência inegáveis. Tomando como objeto de caso novamente as obras Trilogia Suja de Havana e Mulheres, são de se notar diversos aspectos, como a estrutura não linear dos capítulos, o estilo informal da escrita e a confusão entre ficção e realidade – muito do escrito é baseado nas vidas dos autores, muito é exagerado e romantizado. O estilo aparentemente descompromissado de estruturar a narrativa e desenvolvê-la parece mais um suporte à idéia de fuga do sistema cultural padronizado – tanto o estadunidense de Bukowski, mesmo que já dialogando com a experiência beat, quanto o latino-americano de Gutiérrez, mesmo que dialogando com o próprio Bukowski. Essa idéia de fuga, porém, vai de encontro com uma busca: a de atingir leitores que se identifiquem com as obras. Claro que nada é por acaso, ambos os autores tinham uma idéia de público-alvo que não irá desaparecer frente à desesperança interna de suas obras. Bukowski tinha, e isso transparece em momentos de sua narrativa, pretensões artísticas, assim como Gutiérrez – além da conotação política da qual é impossível fugir. Deve-se separar o conteúdo de sua proposta primordial; a de ser lido e, conseqüentemente, discutido.

Por fim, cabe frisar outro diálogo entre os autores: a influência cultural latina na Los Angeles de Bukowski e a influência cultural norte-americana, se não em Havana, ao menos na formação intelectual e ideológica de Gutiérrez. Bukowski, também por conta dessa influência e por, também a partir dela, ter formado um estilo próprio e peculiar, não se dimensiona como expoente de uma literatura norte-americana. Por outro lado, Gutiérrez, como escritor latino-americano, não sofreria dessa restrição nos círculos acadêmicos no momento de se inscrever como expoente latino-americano – ainda é cedo, claro. A influência cultural norte-americana, assim como a européia, é uma constante no fazer literário da América Latina.

N. E. Em tempos de pouco tempo para o cuidado virtual, publico, em homenagem aos 15 anos da morte de Bukowski, texto antes divulgado no já há muito travado Vaca Amarela.

Mais sobre o autor, escrevi no Mínimo Múltiplo. Texto publicado ontem, com direito a um desenho despretensioso feito por mim especialmente para a ocasião.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

03. Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan [100 filmes da Bravo!]

Puxa vida, e vejam o Brando aí de novo. Temos em Sindicato de Ladrões mais uma soberba atuação do ator que é considerado por muitos o maior da história do cinema. Mas, claro, as qualidades do filme de Kazan não se esgotam aí. Sindicato de Ladrões se justifica no Top 3 da Bravo! e talvez se justificasse também no meu Top 3 - inclusive já fiz uma resenha a respeito. Uma história bem dirigida por Kazan, com, além de Brando, diversas outras grandes atuações, e elementos preciosos na narrativa, fazem desse filme outro sensível marco cinematográfico.

A história sensibiliza do início ao fim. Ao tratar da corrupção e violência que dominava um sindicato de trabalhadores portuários, Sindicato de Ladrões mostra a triste situação da divisão de classes dentro de classes, da dominação de homens por outros em escala infinita, da deterioração do indivíduo em um capitalismo que lhe tira a vontade e as oportunidades.

No centro da história, Terry Malloy (Brando), um ex-boxeador frustrado pelos interesses do irmão Charley (Rod Steiger) na luta que poderia ter lhe levado à fama no boxe, vive na mediocridade como parasita do corrupto sindicato de trabalhadores das docas, uma máfia comandada por Johnny Friendly (Lee J. Cobb), de quem Charley é o braço direito. Após participar do assassinato de um amigo que estava criando problemas ao sindicato, Terry se apaixona por sua irmã, e passa o filme no dilema de entregar os “amigos”, entre eles seu irmão, para a justiça - e assim sair da condição moral miserável em que vive - ou nessa condição se manter.

São diversas as cenas antológicas, incluindo o famoso diálogo de Terry com Charley no carro, usada em aulas de interpretação no mundo inteiro. O desfecho - que eu não vou contar - me fez levantar da cama e permanecer em pé até rolarem os créditos finais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Por que discutir?

Discussão: dis.cus.são

sf (lat discussione) 1 Ato ou efeito de discutir. 2 Exame de um assunto por meio de argumentos; argumentação que tem por fim chegar à verdade ou elucidar dificuldades; debate: Da discussão nasce a luz. 3 Contenda, disputa. 4 Controvérsia, polêmica. 5 Altercação, briga. 6 Dir Sustentação de razões pelas partes litigantes para que se esclareça a verdade do fato e se demonstre a quem assiste o direito pleiteado.

Da discussão nasce a luz? Essa descrição do termo, por ser colocada em itálico no dicionário Michaelis, provavelmente é uma citação. Quem disse isso? Vá saber. Eu arriscaria Platão, o filósofo grego que defendia o diálogo como forma literária maior - e consequentemente tornou-se célebre escrevendo assim. Porém, tal citação poderia originar-se de qualquer pessoa imbuída na cultura ocidental, calcada no pensamento grego-romano, que vê na discussão, no diálogo, uma arte a serviço da busca do conhecimento.

Escrevo aqui tentando abrir parênteses nessa concepção tão antiga quanto combalida. Parênteses com aroma de século XXI, quando a idéia de que a discussão é não só nobre quanto necessária já não é tão hegemônica. Mais de uma vez nos últimos dias tive conversas que entabularam em princípio de discussão, eu e meu interlocutor divergindo sobre algum tema banal e começando a expôr nossos pontos de vista. E, mais de uma vez, quem estava comigo apressou-se em atirar panos quentes na conversa: "ah, velho. Opiniões são opiniões. Fica com a tua, eu fico com a minha, para que um tentar convencer o outro do contrário?"

Essa postura guarda uma louvável intenção de assegurar respeito entre as partes, um convite à cordialidade. Porém, o importante para mim foi notar a falência da visão clássica da validade da discussão. Poderíamos culpar Nietzsche por isso? Foi o filósofo alemão que difundiu o conceito de relativismo e, com isso, talvez tenha inaugurado a era da discussão moderna no Ocidente. Disse ele: "o mundo para nós tornou-se novamente infinito no sentido de que não podemos negar a possilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações". Essa visão, expressa na obra "A Gaia Ciência", vai de encontro à visão etnocentrista que a ciência moderna herdou dos gregos - de onde veio o termo "bárbaro", usado por eles para se referir a quem não compartilhava de seus valores.

O resgate dos valores greco-romanos no Renascimento e, depois, no Iluminismo, formou uma cultura ocidental calcada na idéia de "Império da Razão", uma razão que caminharia sempre em uma mesma direção, desenvolvimentista, o que guarda o perigo de querer destinar a todas as culturas os mesmos "problemas" e "soluções". Nietzsche acabou com a festa.

Mas que visão é essa que emerge em nossos tempos? Será que a "lição" que deveríamos levar da filosofia de Nietzsche e tantos outros (ele não fez nada sozinho) não ficaria melhor resumida em "respeite as outras opiniões, respeite o diferente" do que em "não me agrida com seus argumentos"? A palavra discussão parece às vezes guardar uma aparência agressiva. Admito que a imagem que vem à minha cabeça ao ouvi-la é - em algum daqueles exercícios tão caros aos psicanalistas - a de um casal à beira do divórcio; assim como o complemento que imagino em minha cabeça de jornalista seria "...acaba em morte".

Minha visão disso tudo é simples: evitar a discussão com o argumento de que "ninguém tem que convencer ninguém" é posicionar-se na defensiva, ter receio de expor argumentos para suas posições ou, em último caso, uma desculpa esfarrapada para que não está com vontade de jogar conversa fora. Excetuando-se a última possibilidade, acredito que em geral esse procedimento vem calcado de uma visão negativa do diálogo; seja por quem não dá importância à discussão, seja por quem está acostumado a lidar com gente que não respeita seu real valor: expor pontos de vista, sem comprometimento em doutrinar seu interlocutor.

Platão e Nietzsche estavam certos, fico em cima do muro. Porém, tudo é mais difícil na prática. E defender um ponto de vista é praticá-lo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Fofoca mal contada também vale

Uma biografia não-autorizada de Roberto Carlos (o cantor, claro) atrairia a atenção de quem gosta e de quem não gosta dele por forças próprias, mas quando o livro escrito por Paulo César de Araújo foi tirado de circulação por medida judicial favorável ao cantor - que teria se irritado com a invasão de sua privacidade - todos ficaram ainda mais curiosos em saber o que tanto preocupava o Rei.

Baixei o livro de Araújo quando do seu lançamento nas livrarias. Li as páginas iniciais mas, seja qual foi o motivo, acabei deixando-o de lado - talvez o principal fator seja mesmo seu formato digital, ao qual dificilmente o leitor consegue se acostumar. Pois nesse feriado de Carnaval, completamente jogado às ratazanas, tendo que trabalhar todos os dias e passar noites solitárias em meu apartamento, lembrei que tinha acesso a essa biografia. Dessa vez fui mais longe, bem mais longe, acabei por lê-la inteira.

Não dá pra negar que a vida de Roberto Carlos é interessantíssima. Na obra de Araujo há referências e detalhes de todos os dramas do cantor, como a perda de sua perna quando criança, seus casos amorosos, o desenvolvimento de seu Transtorno Obssessivo Compulsivo (TOC) e outros bafões do gênero. Dá para entender a irritação do Rei, conhecido pela preocupação que nutre com sua imagem, ao saber do conteúdo do livro. Porém, nada de muito estarrecedor é contado, nada que manche a imagem do cantor mais popular do Brasil.

No entanto, a atitude tomada por Roberto Carlos ao impedir a venda dessa biografia não-autorizada acaba sendo benéfica ao público em geral. O livro é muito mal-escrito. Araújo mostra pouco preparo para uma narrativa tão longa, fazendo com que a prosa dê voltas à toa e, em alguns momentos, abra parênteses grandes demais. O autor peca também ao interferir muito na obra, sem que suas opiniões acrescentem ao conteúdo. Alguns expedientes propostos por Araújo são inexplicáveis, como em certo momento, em que o autor compara o amor de Roberto Carlos por Maria Rita ao de John Lennon por Yoko Ono (?). Ele acaba por esquecer do Rei, a favor do romance do ex-Beatles - talvez querendo aproveitar a qualquer custo as histórias contadas por um de seus entrevistados sobre Lennon.

Apesar das críticas ao autor, saliento o valor que o material tem, fruto de uma pesquisa que contou com acesso a muitas das pessoas que conviveram intimamente com Roberto Carlos. Só de saber que o Rei também "deu uns pegas" na Maysa, já vale o esforço da leitura.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Biografia de Juan Aguado

Juan Aguado guardava essa personalidade mui peculiar, dotada de grandes virtudes, assim como dos pecados mais ofensivos à convenção social. Chegou de Madrid a Porto Alegre na década de 50, logo após servir no exército espanhol. A ascenção de Franco ao poder lhe desencorajou a voltar - e, de fato, jamais voltaria.

Em seu passaporte consta a profissão "mecânico de Mercedez Benz". Familiares contam que só o viram dirigir uma vez, porém com extrema perícia. Trabalhou sempre em lugares elegantes, em posições "baixas": garçom, cozinheiro, copeiro... Dotado de vasto conhecimento, fluente em três línguas, não tinha dificuldade para fazer amigos nem muito interesse em mantê-los.

Casou, teve filhos, abriu um restaurante - comida espanhola, claro. Viveu na cidade por mais de 30 anos na ilegalidade, recusando favores, documentos, oficialidades. Um conhecido, alto funcionário de certa companhia aérea, lhe ofereceu passagens para visitar parentes na terra natal. Recusou: "não tenho nada para fazer lá". O cônsul local quis facilitar uma aposentadoria pelo exército espanhol, Juan nunca se interessou. Lia as cartas e jogava pelos cantos.

Teve posses por certa época, fruto da amizade com contrabandistas que operavam no Porto. Desfilou em ternos bem cortados, deu bons presentes aos filhos. Seu pai, mestre sapateiro, mandava sapatos de Madrid. A mãe mandava brinquedos às crianças. Na posição mais baixa em que esteve ou na mais alta nunca perdeu a teimosia, a maneira de levar tudo às últimas inconseqüências.

Nos anos 80, diabético, recusou parar de beber. Certa feita, em acidente comum, cortou o pé esquerdo ao pisar em um caco de vidro. Não tratou do corte, recusando-se a ir à Santa Casa, "ficar no meio do pobreril". Não faltaram, porém, vizinhos para aconselhar "um remedinho caseiro", "uma plantinha", "um chazinho". Quando o seu pé - já infeccionado - infestava toda a casa de mau-cheiro, obrigaram-no a ir ao hospital.

Cortaram-lhe o pé, depois até o joelho, depois até o quadril, até descobrirem que a infecção já percorria todo o corpo. Morreu em dois dias. A certidão de óbito assinala" "sem posses, sem deixar bens". Juan Aguado, Juan Aguilar Aguado, meu avô, conseguiu o que parecia buscar: morrer de orgulho, deixando poucos vestígios.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

No más Hermanos

Na última vez - e única - em que escrevi sobre o novo álbum do Marcelo Camelo, "Sou", confesso ter tido certa rispidez nas palavras. É por isso, e por alguns elementos novos que trago à conversa, que volto a abordá-lo. Recentemente, em clima de Natal, pensei em escutar mais algumas vezes o "Sou", e é isso justamente que estou fazendo agora.

Não sou da turma que defende a teoria de que alguns discos precisam ser ouvidos diversas vezes para ser compreendidos. Conversa fiada. O que vale é a atenção que damos, algo raro hoje em dia. Pouco paramos a nos dedicar com exclusividade à apreciação da música. O negócio é colocar música para lavar louça, tomar banho, conversar no Messenger. Fugi dessa onda e dediquei amplos ouvidos ao Camelo.

Minha opinião pouco mudou. "Sou" ainda é um álbum chato e pretensioso. Camelo mostra na maioria das músicas que é um compositor talentoso, como em "Doce Solidão" e "Janta". Porém, sua empreitada pela MPB e por uma espécie de balada próxima ao folk ainda precisa amadurecer muito, principalmente nos seus arranjos. Apesar de mostrar notável progresso como violonista, o ex-Hermano ainda peca nas escolhas que faz na hora de dosar experimentações. Soma-se a isso a estranha impostura de sua voz, quase inaudível em algumas canções. Talvez Camelo tivesse melhor sucesso chamando vocalistas para cantar em suas músicas, como faz em "Janta", em que Mallu Magalhães corta o seu murmúrio com uma voz singela, quase infantil, singularmente bonita. Poucos álbuns tem uma primeira faixa tão desestimulante quanto esse, com "Téo e a Gaivota". As letras do disco também deixam a desejar, tentando soar - sem sucesso - à maneira de Caymmi e outros compositores aparentemente simples mas que sabiam dar profundidade bem maior a seus versos com as mesmas palavras usadas por Camelo.

Longe daqui, nos EUA, Rodrigo Amarante seguiu um caminho bem diferente de Camelo, ao juntar-se com o baterista dos Strokes, o brasileiro Fabrizio Moretti, e a cantora Binki Shapiro. O Little Joy soa um pouco como Strokes, um pouco como Los Hermanos, um pouco como várias outras coisas: reggae, folk, salsa... A mistura resulta num pop eficiente, com momentos de brilho em diversas faixas, como "Unattainable", cantada com doçura por Shapiro, "Evaporar", única música em português, cantada por Amarante e que lembra um pouco o álbum de Camelo. Predominam no álbum os rocks rápidos e simples, levados com naturalidade surpreendente - principalmente pelo idioma - pela voz arrastada de Amarante.

Difícil comparar o que cada um fez. Talvez Amarante tenha levado vantagem no resultado final por ser menos ambicioso que Camelo, de quem se esperava mais. Camelo teve recepção calorosa do público gaúcho quando veio tocar em Porto Alegre. Amarante vem à cidade com o Little Joy no final de janeiro, um teste interessante em uma cidade que sempre acolheu com entusiasmo os saudosos Hermanos.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Coluna do meio

Dia desses fiz um barraco no Youtube, nos comentários sobre o “Pollyshop - Kit Left Revolution".

O projeto, de uma disciplina de Comunicação da Fabico (ai, que saudade), conseguiu notável sucesso ao tirar sarro dos "neo-esquedistas" de faculdade. Na última vez em que acessei, eram mais de 35.000 acessos e 200 comentários. Considerando a baixa qualidade do vídeo, os clichês utilizados e tudo o mais, é algo a ser comemorado (ao menos por quem fez o troço).

A discussão não levou a nada - caminho natural da maioria dessas discussões virtuais. Não levou a nada, digamos, de efetivo; porém, discussões sobre ideologia, política, fanatismo e hipocrisia são sempre importantes. Por exemplo: ao irritar-me com a leitura preconceituosa que alguns reacionários enrustidos fizeram do vídeo, perdi cerca de meia-hora escrevendo e escrevendo para acabar sendo taxado como um dos alvos da obra. Isso mostra que a maioria das pessoas pouco sabe argumentar e entender posições que fujam do 8 ou 80, da dicotomia esquerda x direita, do preto e do branco (ou do vermelho). Nossa sociedade parece ainda viver nos anos de Guerra Fria, longe de fugir das convenções que nasceram nessa época.

O Eduardo Nunes escreveu em seu blog sobre o vídeo e toda a mini-polêmica em volta dele. O texto é ótimo, trazendo um olhar crítico sobre a discussão e posicionando-se eficazmente em cima do muro. Não acho essa posição uma vergonha. Uma visão geral sobre minhas idéias e sobre o que defendo/condeno deve também jogar-me em meio a essa turma. O blogueiro amigo poderia, assim, ter evitado colocar-me na "defesa da esquerda mundial". Nesse ponto, acabou cometendo o mesmo erro dos colegas de atrito no Youtube.

Junto-me, no entanto, ao grosso de seu discurso. As visões simplistas que temos da esquerda e da direita apenas evitam que possamos entender a multiplicidade de idéias que costumeiramente jogamos nesses caldeirões, assim como acirram discussões vazias. Um pouco de estudo não faz mal para essa gente, nem um pouco de bom-senso.